segunda-feira, 24 de agosto de 2009

A Noiva Cadáver, em stop motion


Imagine um mundinho arrasado, de pouco movimento, acobertado pelo triste e sóbrio preto e branco onde ainda habitavam condes e barões; carruagens desanimadas sobre as ruas de tijolos esquecidos. Agora, mentalize a existência paralela de uma vida no subsolo, a mais que sete palmos do chão. Sim, é um mundo de cadáveres, colorido e agitado, cheio de festas e confraternizações: A Terra dos Mortos.

A inversão de papéis criada pelos diretores Tim Burton e Mike Johnson englobam um universo em stop motion onde Emily, uma noiva assassinada pelas mãos de um crápula anseia por um novo casório, uma nova oportunidade.

O cenário gótico aplicado fantasmagoricamente na urbanização mostra que todo o nosso preconceito e ignorância contra o diferente é apenas o reflexo de nós mesmos pojetado num espelho. Criaturas com deformidades visuais não representam para a sociedade necessariamente o terror periculoso que vemos em filmes e livros de horror americano, e esse toque de verdade que Burton apresenta na maioria de seus filmes (vide Edward Mãos-de-tesoura) é um dos aspectos que mais admiro em todo o seu trabalho.

A Noiva Cadáver é uma produção musical, com lindíssimas canções que vão narrando o romance de maneira ainda mais sentimental. As canções de Danny Elfman transmitem agonia ao espectador nas horas certas e devida empolgação quando o assunto é de fato empolgante.

Quando assisti pela primeira vez, pensei que era animação, de tão bem feito. Mas pesquisei sobre o processo stop motion e vi que se trata de uma complicação danada. Os melhores artistas plásticos da época foram convocados pra projetar cada personagem com um toque identificável de caricatura manual, a partir dos estereótipos de Burton (que, por sinal é um excelente desenhista). Eles fotografam cada posição dos personagens, o que se assemelha bastante com o processo de animação em CGI, depois organizam a transição das imagens numa máquina, de maneira que os bonecos realmente pareçam estar correndo, estendendo o braço, cantando, mexendo a boca, enfim. É tudo muito interessante, e o mais fantástico é que tudo é feito com massinha de modelar!

Cada personagem tem um aspecto acentuado em sua aparência, como se fosse uma marca registrada: Victor, o noivo raquítico que não parece muito interessado pela cerimônia de casamento. Victoria, a noiva. Ela é baixinha, magricela, aparência típica de uma jovem confusa. Emily, a noiva cadáver é muito parecida com Victoria, e, ao mesmo tempo, muito diferente: Ela é como se fosse a versão cadáver de Victoria, porém muito mais alegre e metódica, muito mais disposta a se casar não importasse com quem. Os pais de Victoria, que pareciam querer a qualquer custo um noivo para sua filha, pareciam estar financeiramente abatidos, e com todo o oportunismo e cara de pau, a oferecem a qualquer um que se manifesta a portar enorme poder aquisitivo. Não vou contar mais, senão acabo spoileando pra quem ainda não assistiu.