segunda-feira, 27 de abril de 2009

O deserto perverso


Caminhado pelo deserto, eu chutava a areia
Clara era tua cor, mas pretas eram suas artimanhas
Enquanto voavam, grão por grão,
Rodopiavam aleatoriamente
Moldando rostos
Me dopando com a sua óptica.

O que deveriam ser rodopios abstratos
Tornaram-se assombrações
Assombrações ao deserto, tarde caindo,
Alisei minha barba,
Apertei meu cinto,
Fixei as areias recalcadas,
grão por grão,
E de grão por grão, fui caindo

Puxado pelo solo, fui submerso,
Submerso pelo granulado rio,
Submerso pelo exílio,
Até o glorioso santuário
Que também foi submerso outrora
Submerso como eu.

Abaixo, desci mil degraus,
Ou seriam os degraus que desceram mil de mim?
O templo era tão deserto quanto o real deserto,
Era o pedículo de cogumelos,
Debaixo da sombra de cedros mortos.

Enquanto eu antes era o panorama,
Agora me tornei a panorâmica vista.
Vista de um futuro aventureiro,
Que cortaria o deserto para me resgatar.
Vista de um salvador inexistente,
Que, aos prantos e louco,
Me deixaria evaporar.