sexta-feira, 3 de abril de 2009

O observador.


O Observador se mantinha alerta. Seu binóculo encaixando os olhos ocultos captavam a cidade numa vista aérea. O Observador estava caindo do céu. Não havia sido jogado, nem mesmo estava agindo voluntariamente. O ar o guiava, por entre as nuvens, debaixo do infinito ele se deixava levar.
O Observador era um anão de bigode marrom com ocasionais fios grisalhos. Não era um homem velho, era só um moço ultrapassado. O macacão jeans sobrepunha seu surro sobre a camisa quadriculada feito jogo de xadrez enquanto, em seus cabelos cor de ébano, uma boina negra se encontrava amarrada sob dois nós que traçavam o queixo do Observador.
Na medida em que caía, reflexos diferentes se projetavam nas enormes lentes circulares do binóculo, lentes que se aprofundavam cada vez mais. O Observador girava o zoom e via as ruas curvas de bairros paralelos, via guardas de chapéus pontudos montando alazões e retirando do bolso revólveres letais.
Por um momento o observador hesitou, mas o seu binóculo permanecia acima de suas grandes bochechas. O Observador estava inexpressivo, tremia ao ver o que via coçando o cabelo por debaixo da boina. E as lentes ficaram vermelhas de repente, feito o fogo mais carmesim da estória dos foguetes.
- Foguetes! – gritou o Observador espantado, enquanto, com o seu binóculo redondo, contemplava céu abaixo um festival de fogos de artifício estourando no meio de disparos. O terrível ambiente cheirava a pura chacina e o Observador estava pousando no meio dela.
As pessoas gritavam. O Observador podia perceber lá do alto, mesmo sem a agonia sonora tomando os seus ouvidos. Ele apenas observava. Observava com o seu binóculo redondo de lentes reverberantes.
O Observador pousa na guerra, sem armas, sem escudo, sem nada. Mas em momento algum ele remove a ferramenta dos olhos.
Aproximou-se um dos alazões carregando o militar autoritário.
- Saia daqui! – o militar monstruoso ordenou ao Observador, empunhando uma espada de gume afiado. _ A cidade é minha!
O Observador suspirou fundo, e pareceu olhar mais profundamente para dentro do guarda.
- Podemos conquistar hordas, legiões e continentes, soldado, mas quem os têm nunca alcançará o dom da Observação. Não sou um poderoso deus nem tenho a intuição de um cavaleiro salvador, mas dentro de mim mora o oráculo do mundo. Eu vim do espaço para mostrar-lhe o próprio fim antes mesmo que ele ocorra. Aqui está ele.
O Observador, pela primeira vez, arrancou dos olhos o fantástico binóculo e o ergueu para além de seu alcance, para além do tronco do cavalo de batalha.
O militar o apanhou de imediato, e não pensou duas vezes ao aderir seus olhos vermelhos ao instrumento brilhoso. Brilhoso feito as estrelas do firmamento, e então, ao olhar para além de seu posto, no escuro horizonte que se compunha da penumbra noturna ele enxergou o seu próprio espírito vagando na perpétua vegetação do emaranhado de carvalhos... E então seu corpo físico se desmontou do cavalo ereto e ele morreu.

Com um binóculo e uma mente, temos mais que terras e bens. Temos as engrenagens do universo.

Alquimia


A palavra alquimia, AL-Khemy, vem do árabe e quer dizer "a química". Esta ciência começou a se desenvolver por volta do século III a. C. em Alexandria, o centro de convergência da época e de recriação das tradições gregas, pitagóricas, platônicas, estóica, egípcias e orientais. A alquimia deve sua existência à mistura de três correntes: a filosofia grega, o misticismo oriental e a tecnologia egípcia. Obteve grande êxito na metalurgia, na produção de papiros e na aparelhagem de laboratório, mas não conseguiu seu principal objetivo: a Pedra Filosofal.
A alquimia, antiga prática que consistia inicialmente em transformar metal em ouro é a fonte de inspiração para vários contos e livros do nosso acesso.
Antigamente os alquimistas acreditavam na possibilidade de conseguirem uma maneira de curarem todas as doenças, e conseqüentemente adquirirem vida prolongada. Para isso tentaram criar o chamado Elixir da Longa vida. Claro que não tiveram sucesso, hoje sabemos que é tudo superstição porque temos uma base de informações muito maior para separar o óbvio do não-óbvio. Mas de acordo com a antiga acepção mitologica, o elixir tinha interpretações diferentes que variavam da mitologia nórdica para a mitologia grega, fora todas as estórias européias nas quais fontes da juventude são usadas para rejuvenescer o bebedor de sua água.
Embora um tanto regional, a alquimia num contexto coletivo tinha milhares e fórmulas transcritas em pergaminhos para que não fossem nunca esquecidas, as chamadas “herméticos”. Elas eram escritas através de símbolos para ser mais restrita e menos acessível. Não poderia cair em mãos erradas, e não obstante a prática da alquimia era oculta, mostrada apenas por ilustrações obscuras e palavras que, juntas, seriam capazes de formar uma outra.
O escritor brasileiro Paulo Coelho nos trouxe uma visão mais “sóbria” do assunto e nos permitiu que fixássemos como a alquimia pode ser empregada no nosso dia-a-dia, ou como ela é empregada e não percebemos isso. Embora ele seja considerado uma fraude no Brasil, países alheios vêm suas obras como verdadeiras fontes de pesquisas e retiram delas o que consideram interessante para a prática cotidiana da bruxaria. Num de seus mais bem recebidos livros, O Alquimista, ele mostra algumas figuras obscuras da antiguidade que aparecem de acordo com a progressão da estória, mas de um ângulo metafórico. Um exemplo é a ilustração do manuscrito De Summa, que mostra um cisne encapsulado debaixo de uma junção redonda formada por quatro elementos: orvalho, sal, mercúrio e enxofre (matérias-primas do processo alquímico). Esse esquema é um composto de símbolos astrológicos, animais e enigmas dificílimos de serem decifrados.
Na alquimia, para cada elemento existia um planeta paralelo, por isso os alquimistas associavam símbolos com astros para a representação de determinado conjunto:
• O Sol com o ouro
• A Lua com a prata
• Mercúrio com mercúrio
• Vênus com o cobre
• Marte com o ferro
• Júpiter com estanho
• Saturno com chumbo
Acreditava-se que a Terra era feita por quatro elementos da natureza: água, fogo, terra e ar. A partir daí foi criada a transmutação (transformar uma forma ou matéria em outra alterando as proporções dos elementos através dos processos de destilação, combustão, aquecimento e evaporação.). Com a distinção do úmido, do frio, do quente e do seco, tudo ficou mais fácil e mais evoluído.