sábado, 18 de abril de 2009

O banco, a árvore e o poste


Os últimos dias têm sido monótonos, sem muita coisa para fazer. Quando você pára para rever a sua vida, você estranhamente sente de novo o gostinho que dava em sair com os amigos, zoar à beça da cara dos caretas na rua e descontrair, ter o mundo ao seu lado, mudar a rotação do sistema universal, o sentido de tudo.
Esses tempos se foram. Era legal quando a galera se juntava para beber uns goles em finais de semana e feriados inconstantes, ir a shows e ouvir o rock repuxando o seu interior para sempre, como um refluxo contínuo de uma vida que já se foi. Mas nós nos separamos.
Alguns foram morar fora, outros permaneceram, mas com pouco contato e o grupo foi se desfazendo aos poucos. Onde estão as nossas cervas dos finais de semana, onde foram parar as conversas que jogávamos fora? Talvez elas tenham mesmo sido jogadas fora, literalmente.
Bem, sobrei eu. Nesta cidade suja e barulhenta eu fui o único que mantive o ritmo do momento, e continuo tentando manter. Enquanto houver bancos em praças públicas, calçadas para mijarmos em troncos de árvores e tonéis de cerveja para serem esvaziados, a minha pessoa vai estar presente.
Um dia desses saí largado com calça jeans e tênis all star, porque esse era o nosso emblema e nós costumávamos honrá-lo. Todos precisamos seguir um princípio e preservar uma mente. Sempre vi os símbolos como uma identidade. Você escolhe de qual tribo vai fazer parte, em qual dos cantos vai querer fazer história. E as coisas acontecem naturalmente, seu papel é somente o de impulsioná-las.
A rua naquela tarde de sábado estava movimentada. Eu sentei num dos incontáveis bancos de pedra que o lugar comportava e fiquei admirando as pessoas andando para lá e para cá. Casais jovens que se beijavam, homens sérios e encorpados cheios de moral com os magrelos insignificantes. A igreja tinha alguns fiéis, o que é bem notório em tempos como este. Eu não compreendo a filosofia cristã. Nunca encontrei um motivo forte pelo qual as pessoas são induzidas a seguirem uma santidade. Elas crêem, e ao mesmo tempo vêem jovens drogados se matando, assassinos armados com o poder absoluto e prostitutas vendendo seus corpos em becos de prédios isolados. O mundo enlouqueceu.
Percebi que havia um poste perto de onde eu estava sentado e ao lado dele uma árvore comum, troncuda, dessas que resistem à poluição urbana. Desviei meus olhos para esses dois objetos e comecei a refletir: Por que o poste pode queimar? Por que ele está fortemente vulnerável a estragos e a árvore não? É bem estranha a desigualdade das coisas, é estranho como os elementos da natureza são mais fortes que os gerados pela tecnologia. Por mais que o ser humano trabalhe em algo resistente, ele não é tão perfeito a ponto de sobressair entre as árvores, frutos e até mesmo sobre o crepúsculo (este é insuperavelmente o fenômeno mais belo que os nossos olhos podem ver).
Há um sistema por trás de tudo, o mundo é uma máquina submetida a estragos e consertos e há uma resposta para todas as perguntas. As árvores se movem porque o vento as atinge, mas de onde veio o vento? Ora, o vento é um órgão essencial, tanto para mover coisas como para dar vida ao ser humano, o vento é a essência mundana que nos estimula a viver. Sem ele todos nós nos tornaríamos criaturas mau-humoradas e sem agitação. Por que todos nós bebemos até desmaiar e depois passamos mal a ponto de irmos parar no hospital? Óbvio que é porque tem que ser assim. As pessoas roubam umas às outras porque esta é a nossa lei. Os amigos e inimigos existem porque são divididos em grupos sociais e se emplacam no que mais tende a sua natureza interna.
Toda essa ratoeira existe para sustentar seus ratos, privá-los do frio e dos perigos diurnos, abrigar a todos eles e tentar uni-los, embora eu pense que seja vã essa tentativa, porque os ratos são todos individualistas e mesquinhos.

5 Comentários:

Às 19 de abril de 2009 08:23 , Blogger Ingrid disse...

Gostei muito do texto!

Estranhamente sinto que eu poderia ter escrito algo muito parecido, se não, igual.


T+

 
Às 19 de abril de 2009 08:35 , Blogger Obi-wan disse...

Este comentário foi removido pelo autor.

 
Às 19 de abril de 2009 08:37 , Blogger Obi-wan disse...

legal. esse texto foi mais um desabafo, mas é verídico. legal saber que alguem pensa como eu.

abraço! te mais.

obs: eu sou o Gustavo, posto como obi-wan por causa do e-mail de cadastro que nomeei assim ha um tempo.

 
Às 24 de abril de 2009 12:39 , Blogger Mauro Tavares disse...

relendo esse texto me lembrei de quando tinhas esses sentimentos, fez muito bem pra mim ler o livro DEMIAN de Herman Hesse, se vc não conhece dá uma lida !

 
Às 24 de abril de 2009 12:56 , Blogger Obi-wan disse...

Ainda não conheço o livro, mas vou procurar sim para ler. Valeu!

 

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