quinta-feira, 30 de abril de 2009

Biografia de J.R.R. Tolkien


John Ronald Reuel Tolkien, autor do mundo fantástico da Terra Média, nasceu a 3 de Janeiro de 1892 em Bloemfontein, África do Sul.

Os seus pais, Arthur e Mabel Tolkien, eram de Birmingham, Inglaterra, mas viviam na África do Sul pois um cargo mais elevado tinha sido oferecido a Arthur no Bank of Africa.

Com três anos de idade, Tolkien, o seu irmão mais novo, Hilary e a mãe, regressam a Inglaterra para uma visita, enquanto Arthur Tolkien foi obrigado a ficar devido a trabalho, tencionando juntar-se à família mais tarde. Mas contraiu febre reumática e como não melhorava, Mabel planeava regressar para cuidar dele. Fizeram-se os preparativos de regresso, e um Tolkien entusiasmado, com apenas 4 anos, ditou à ama a seguinte carta para o pai:

“Querido papá:
Estou tão contente por ir vê-lo outra vez, já faz tanto tempo que o deixámos, espero que o barco nos leve a todos, à mamã, ao bebé e a mim. Sei que vai ficar muito contente por receber uma carta do seu pequeno Ronald, já faz tanto tempo que lhe escrevi, agora já sou um homem grande, porque tenho um casaco de homem e um colete de homem, a mamã diz que não nos vai reconhecer, nem ao bebé nem a mim, porque já somos uns homens muito grandes, temos tantos presentes de Natal para lhe mostrar, a tia Gracie veio visitar-nos, eu ando a pé todos os dias e só ando de vez em quando no carrinho. Hilary manda muitos beijinhos e abraços, bem como o seu querido
Ronald.”


No entanto, esta carta nunca chegou a ser enviada, pois chegou um telegrama informando da morte de Arthur Tolkien. A família desisitiu de regressar para Africa e Mabel teve de enfrentar algumas decisões difíceis depois da morte do marido.

Foram viver para uma modesta casa de campo em Sarehole, onde nasceu o amor de Tolkien pelas árvores, bem como o seu ódio por todos aqueles que as destruíam sem razão. Houve um incidente em particular que criou raízes na sua memória: “Havia um salgueiro junto à represa e eu aprendi a subi-lo. Creio que pertencia a um talhante de Stratford Road. Um dia, cortaram-no. Não fizeram nada com ele: o tronco simplesmente ficou por ali. Foi algo que nunca esqueci.” Este contacto com a natureza em Sarehole marcou profundamente Ronald.

Sem possibilidades de pagar a um tutor, Mabel assumiu pessoalmente a educação dos seus filhos. Era uma professora competente, com conhecimentos nas áreas de latim, francês e alemão. A disciplina favorita de Tolkien era o latim: os sons e as formas das palavras deleitavam-no tanto como o seu significado. Mabel também tinha sempre o cuidado de que os seus filhos tivessem bastantes livros para ler, e histórias de duendes maléficos e fadas boas eram as suas favoritas e estimulavam a sua imaginação. O pequeno Ronald gostava especialmente dos contos de Andrew Lang, e a história de Sigurd, o destruidor do dragão Fafnir, marcou-o durante muito tempo. “Eu desejava ardentemente os dragões”, recordou Tolkien muitos anos depois, e, aos sete anos de idade começou a escrever a sua própria história acerca de um dragão. “De nada me lembro a não ser de um facto filológico”, recordou. “A minha mãe não disse nada sobre o dragão, mas sublinhou que não se podia dizer “um verde grande dragão” e sim “um grande dragão verde”. Perguntei-me porquê e continuo a perguntar. O facto de eu me lembrar disto é, possivelmente, significativo, pois parece-me que durante muitos anos, não tentei escrever outra história e dediquei-me à linguagem.”

Em 1900 Tolkien conseguiu uma vaga na Escola King Edwards em Birmingham e a sua mãe converteu-se ao catolicismo. A conversão representou para Mabel e seus filhos o corte da ajuda económica dos seus parentes protestantes, que receberam muito mal este passo. No entanto, Mabel enfrentou com firmeza todas as dificuldades que a sua conversão provocou, e começou a educar os filhos de acordo com a religião católica. Tolkien permaneceu um católico convicto, um facto que influenciou profundamente o rumo da sua vida.

As propinas da escola que Tolkien frequentava eram pagas por um tio, que manteve a sua posição de solidariedade para com a família apesar da polémica conversão. Mas a escola ficava a cerca de seis quilómetros de Sarehole, e a mãe não tinha como pagar a viagem de comboio. Assim, nos finais de 1900, os rapazes deixaram a aldeia onde durante quatro anos tinham sido tão felizes, e mudaram-se para o ambiente escuro e urbano de Birmingham, para poderem frequentar a igreja católica e para estarem mais perto do colégio.

Enquanto Tolkien progredia nos seus estudos, a sua mãe contraíu diabetes, doença sem cura naquela época, o que lhe veio a provocar a morte a 14 de Novembro de 1904. O Padre Francis Morgan, pároco de S. Dunstan, passou a ser o tutor dos dois meninos. De início foram viver com a sua tia Beatrice, mas esta revelou pouca afeição pelos irmãos orfãos e estes em breve começaram a considerar a Igreja o seu verdadeiro lar. Todas as manhãs apressavam-se a servir na missa do Padre Francis e depois tomavam o pequeno almoço no refeitório da Igreja, antes de irem para a escola.

Tolkien ficou eternamente grato por tudo o que o Padre Francis fez por ele e o irmão. “Foi com ele que aprendi pela primeira vez o que é a caridade e o perdão” recordou muitos anos depois. Nos anos que se seguiram à morte da mãe, Tolkien descreveu-se como “praticamente um jovem interno da casa do Oratory. Era um bom lar católico que continha muitos padres instruídos e onde a observância da religião era rigorosa.”

A caridade e o perdão que Tolkien aprendeu com o Padre Francis nos anos seguintes à morte da mãe contrabalançaram a dor e a tristeza que esta provocara. A dor acompanhou-o durante toda a vida, e sessenta anos mais tarde, comparou os sacrifícios que a mãe fizera em nome da sua fé com a complacência de alguns dos seus próprios filhos em relação à fé que dela haviam herdado.

Nos anos que se seguiram o Padre Francis Morgan tornou-se um pai substituto para os dois órfãos. Tolkien descreve o Padre como “um tutor que foi para mim um pai, mais do que a maioria dos verdadeiros pais.” Todos os Verões, levava-os a Lyme Regis, onde ficavam instalados num Hotel, e foi numa dessas estadias que o sacerdote descobriu que os rapazes não eram felizes com a Tia Beatrice. Ao regressar a Birmingham, começou a procurar um local mais adquado, e em 1908 foram viver para casa da Sra. Faulkner, amiga do Padre Francis, onde partilhavam um quarto no segundo andar. No andar de baixo vivia uma rapariga, também órfã, muito bonita, que se chamava Edith Bratt. Apaixonaram-se e começaram a namorar em segredo.

Muitos anos mais tarde, numa carta a Edith, Tolkien recordou: “o primeiro beijo que te dei, o primeiro beijo que me deste (quase acidental), e as boas noites que trocávamos às vezes, quando estavas já em camisa de dormir, e as nossas longas e ridículas conversas à janela: e a forma como víamos o sol erguer-se sobre a cidade por entre o nevoeiro… e os nossos assobios, e os nossos passeios de bicicleta e as nossas conversas à lareira.”

Foi num desses passeios de bicicleta que o jovem casal se colocou em sarilhos, o que temporariamente pôs fim ao namoro clandestino. Pois Tolkien e Edith foram tomar chá na aldeia de Rednal, e apesar de saírem e regressarem separados para não levantar suspeitas, a senhora que lhes servira o chá disse ao zelador da Oratory House que vira Tolkien com uma rapariga desconhecida. O mexerico depressa passou para o cozinheiro, que por sua vez contou ao Padre Francis.

O sacerdote ficou furioso, tanto mais que Tolkien estava a negligenciar os estudos tão pouco tempo antes do exame de admissão para Oxford. Convocou-o e exigiu o fim do romance com Edith até atingir a maioridade. Quando a jovem se mudou para outra cidade, Ronald, com o seu espírito romântico, não a esqueceu durante os três anos de separação. Assim, à meia-noite do dia em que completaria 21 anos, escreveu uma carta a Edith para reatar os laços rompidos. Este amor de Tolkien pela sua futura esposa foi a inspiração que mais tarde deu origem à lendária “Balada de Beren e Lúthien”

Em 1911 Tolkien consegue obter uma bolsa de estudos para o curso de Letras da Universidade de Oxford, e foi numa viagem aos Alpes Suíços com o seu irmão e outros finalistas da Escola King Edwards, que lhe deixou profundas recordações, como mais tarde conta a seu filho Michael, quando este também vai visitar a mesma zona. Foi nessa altura que idealizou uma das personagens dos seus futuros contos: Gandalf, o ancião que aparece num bilhete postal como o Espírito da Montanha, bem como as montanhas lhe inspiram a descrição da jornada de Bilbo, anos mais tarde. Conta ao seu filho alguns incidentes engraçados, como um encontro com aranhas (que Tolkien detestava) e um episódio do “Jogo do Castor”, que os jovens estudantes se divertiam a fazer mas que um dia teve resultados inesperados:

“Um lugar maravilhoso para o jogo, muito da água naquela altitude descendo em córregos, material represado abundante em pedras soltas, urze, grama e lodo. Nós logo tivemos um belo laguinho (contendo uns 200 galões, pelo menos). Então as pontadas de fome nos golpearam, e um dos hobbits do grupo (ele ainda está vivo) gritou \\\\\\\'almoço\\\\\\\' e destruiu a represa com o seu bordão. A água subiu o lado da colina, e então nós observamos que represáramos um córrego que corria para alimentar os tanques e barragens atrás da pousada. Naquele momento uma velha senhora correu com um balde para buscar um pouco de água, e foi saudada por uma massa de água espumante. Ela derrubou o balde e fugiu chamando pelos santos. Nós permanecemos como cachorros escondendo-se até o perigo passar, e eventualmente demos a volta no caminho para nos apresentarmos sujos (mas nós estávamos normalmente assim naquela viagem) e docemente inocentes no almoço.” - (Carta nº 306)

Em 1915 Tolkien terminou a licenciatura em Oxford, mas teve de se alistar no Exército, pois no ano anterior tinha rebentado a Primeira Guerra Mundial. Foi enviado para França e participou na Batalha do Somme, mas antes de partir casou com Edith na Igreja Católica de Warwick, a 22 de Março de 1916, sendo a felicidade do casal ensombrada pela notícia de que o batalhão de Tolkien devia partir, poucas semanas depois do casamento. A esse respeito, Tolkien escreveu a seu filho Michael, em 1941:

“Pensa na tua mãe! No entanto, nem por um momento sinto que ela tenha feito mais do que lhe deveria ser exigido. Não que isso diminua o seu valor. Eu era um jovem com um moderado grau académico, capaz de escrever versos, com um rendimento de poucas libras por ano prestes a esgotar-se e sem prespectivas, um segundo tenente de infantaria onde as hipóteses de sobrevivência estavam largamente contra nós (como subalternos). Ela casou comigo em 1916 e Jonh nasceu em 1917 (concebido e gerado durante o ano da fome de 1917 e durante a grande campanha dos submarinos alemães), por volta da altura da batalha de Cambraia, quando o fim da guerra parecia tão distante como agora.”


Na guerra Tolkien perdeu alguns dos seus melhores amigos, o que o marcou profundamente, e ele próprio apanhou a febre das trincheiras, tendo de regressar a Inglaterra. Passou o resto da guerra entre recuperações e recaídas, sendo transferido de um hospital para outro, e tendo Edith de mudar de casa continuamente para poder acompanhá-lo. Durante a sua convalescença, começou a escrever o que mais tarde seria O Silmarillion, pois concebera o ideal de criar uma mitologia inglesa, pautada por valores morais. Trabalharia nesses Contos toda a sua vida. Em 1921 conseguiu o lugar de professor de Literatura Inglesa na Universidade de Leeds, e em 1925 regressou a Oxford como professor de Anglo Saxão.

Tolkien e Edith tiveram 4 filhos, John, Michael, Christopher e Priscilla, que iluminaram a vida do casal e o que tornou Tolkien um grande contador de histórias, pois foi um pai sempre atento e amoroso, que inventava e escrevia contos tanto para divertimento dos filhos como para o seu próprio. O seu mundo era o da Literatura e da Linguística, e nos anos 30 começou a compor uma história, que contava à noite aos seus filhos, e que veio a ser O Hobbit. O livro fez tanto sucesso que, a pedido dos leitores e do seu editor, que desejavam mais histórias de Hobbits, Tolkien comprometeu-se a preparar um novo livro, que demorou 13 anos para terminar: O Senhor dos Anéis.

Tolkien também formou alguns grupos literários de amigos que se reuniam para ler e comentar as sagas antigas e discutir sobre literatura. O primeiro desses grupos foi o TCBS (Tea Club and Barrovian Society), ainda como aluno em Oxford, com os seus colegas Christopher Wiseman, R.Q. Gilson e Geoffrey Smith. Mais tarde formou The Coalbiters e em 1931, The Inklings. O Núcleo básico era formado por Tolkien e C.S. Lewis, e reuniam-se num bar ou em casa de algum deles, onde liam e comentavam os seus trabalhos, o que por vezes foi um grande incentivo para Tolkien continuar o longo trabalho de “O Senhor dos Anéis”.

Tolkien e Edith foram casados durante 55 anos, até ela falecer a 19 de Novembro de 1971, o que lhe produziu um grande abalo. Numa carta que escreveu a Christopher, a 11 de Julho de 1972, exprimiu o seu amor pela esposa da mesma forma que sempre se exprimia quando tinha algo para dizer que ultrapassava os simples factos. Recorreu à linguagem do mito, e mais especificamente à linguagem do mito que ela lhe inspirara:

“Finalmente, ocupei-me do túmulo da Mamã. [...] Gostaria do seguinte epitáfio:

EDITH MARY TOLKIEN
1889 – 1971
Lúthien


É breve e simples, a não ser por Lúthien, que tem para mim mais significado do que uma imensidão de palavras, pois ela era (e sabia que era) a minha Lúthien.
[...] Diz o que sentes, sem quaisquer reservas, a respeito deste acrescento. Comecei isto sob a pressão de uma grande emoção e tristeza e, seja como for, sou de vez em quando atormentado (cada vez mais) por um esmagador sentimento de perda. Preciso de um conselho. No entanto, espero que nenhum dos meus filhos sinta que a utilização deste nome é uma fantasia sentimental. Pelo menos, não comparável à citação de alcunhas familiares em obituários. Nunca chamei Lúthien a Edith, mas foi ela a fonte da história que, a seu tempo. se tomou parte de Silmarillion. Começou por ser concebida numa pequena clareira cheia de cónios em Ross, em Yorkshire (onde, durante um breve período, tive o comando de um posto avançado da Guarnição de Humber, em 1917, e onde ela pôde viver comigo durante algum tempo). Nessa época, o cabelo dela era preto e sedoso, a pele clara, os olhos mais brilhantes do que os que vocês viram, e sabia cantar... e dançar. Mas a história estragou-se, e eu fiquei para trás, e não posso suplicar perante o inexorável Mandos.
Por agora, não direi mais. Mas gostaria de ter brevemente uma longa conversa contigo. Pois se, como parece provável, eu nunca vier a escrever uma biografia ordenada - seria contra a minha natureza, que se expressa sobre coisas que se sentem mais profundamente em contos e mitos - deveria haver alguém a quem muito estimasse que soubesse algo sobre as coisas que os registos não registam: os terríveis sofrimentos da nossa infância, de que nos salvámos mutuamente, mas não fomos capazes de sarar os ferimentos que mais tarde viriam muitas vezes a revelar-se incapacitantes; os sofrimentos que suportámos depois de o nosso amor começar... tudo isso (além das nossas fraquezas pessoais) poderia contribuir para tornar perdoáveis, ou compreensíveis, as falhas e trevas que por vezes deterioravam a nossa vida e explicar como foi que estas nunca tocaram as nossas profundezas nem esmoreceram as memórias do nosso amor de juventude. Continuámos a encontrarmo-nos (especialmente quando estávamos sós) na clareira do bosque, de mãos dadas, muitas vezes para fugir à sombra da morte iminente antes da nossa última despedida.”


Tolkien viria a falecer a 2 de Setembro de 1973, aos oitenta e um anos de idade. Foi sepultado ao lado da esposa no cemitério católico de Wolvercote, a alguns kilómetros de Oxford. O epitáfio da lápide de granito é o seguinte:

Edith Mary Tolkien, Lúthien, 1889-1971. - John Ronald Reuel Tolkien, Beren, 1892-1973.


Bibliografia: Tolkien, o Homem e o Mito - Joseph Pearce
O Mundo do Senhor dos Anéis - Ives Gandra Martins Filho


Texto retirado do site Tolkenianos.

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