quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Eles vêem você

Roupas de marca, computador do ano, futebol, namoro, comidas industrializadas... São todos meios usados pela mídia para nos envolver em seus parâmetros.
Para sermos bem aceitos numa sociedade, devemos agir como todos agem dentro dela, nos vestir como todos se vestem, ver o mundo sob a mesma ótica da grande maioria e isso tudo só acarreta a decadência da nossa personalidade, nos encaixando num padrão de vida tão insignificante que não podemos percebê-lo. Somos como formigas despertando, indo pro trabalho, desempenhando bem no grande mercado, nos repousando à noite para que no outro dia o mesmo trajeto se repita automaticamente. Deixamos que o capitalismo nos transforme em escravos, em verdadeiras máquinas.
Desde o momento em que nos submetemos às indústrias, elas passam a se alimentar da gente. Como se nos reduzissem a germes, seus representantes passam a nos vigiar através de um absurdo microscópio universal. As indústrias e o governo sabem o que estamos fazendo agora, cada um de nós: estamos trabalhando para sustentar as nossas crianças, estamos comprando roupas em shoppings centers para que as outras pessoas nos invejem amanhã, estamos antenados na novela das oito, que também funciona como um meio manipulador de informações, sempre querendo saber o que vai ocorrer no próximo capítulo e nos abrindo a qualquer “sugestão” dos comerciais, estamos estudando em escolas e universidades onde o próprio ensino nos passa somente o que o governo quer que tenhamos conhecimento.

No livro Fortaleza digital, o polêmico escritor Dan Brown se refere ao órgão de criptoanálise mais importante dos Estados Unidos como um grande sistema de espionagem: a NSA (National Security Agency, ou Agencia de Segurança Nacional). Através deste órgão mantido pelo governo, as pessoas são vigiadas em sigilo por intermédio da internet 24 horas por dia. Os operários, através de um supercomputador fictício, podem supervisionar cada e-mail trocado a fim de “evitar planos terroristas” encriptados, já que não é mais seguro se comunicar somente através dos caracteres do alfabeto. Mesmo sem cometer crime algum, a vida de cada cidadão estava exposta a um grupo de matemáticos inteligentíssimos.
George Orwell faz coisa parecida em seu livro 1984, mas o recurso que ele usou pra descrever a diligência coletiva foi a infestação de teletelas por toda a Oceania, em residências, cantinas, departamentos... todos os lugares. A cada canto se via o rosto do Grande Irmão, o rosto inexistente ao qual todos deveriam adorar sem questionar.
Quando o assunto é manipulação da mídia ou espionagem, podemos ligar ambas ao governo e culpá-lo inteiramente por isso. Todo fim industrial ou de espionagem são de interesse do nosso própria potência para com cada um de nós, porque é através das indústrias que o país consegue investimento bélico pra manter contínuo o elo que liga a guerra às vinganças pessoais, e nós acabamos por nos enfiarmos nisso. Somos obrigados a adorar o nosso país. Qualquer prova ou descoberta que possa levar alguém para fora deste parâmetro simplesmente “não exite... nunca existiu”.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

A Noiva Cadáver, em stop motion


Imagine um mundinho arrasado, de pouco movimento, acobertado pelo triste e sóbrio preto e branco onde ainda habitavam condes e barões; carruagens desanimadas sobre as ruas de tijolos esquecidos. Agora, mentalize a existência paralela de uma vida no subsolo, a mais que sete palmos do chão. Sim, é um mundo de cadáveres, colorido e agitado, cheio de festas e confraternizações: A Terra dos Mortos.

A inversão de papéis criada pelos diretores Tim Burton e Mike Johnson englobam um universo em stop motion onde Emily, uma noiva assassinada pelas mãos de um crápula anseia por um novo casório, uma nova oportunidade.

O cenário gótico aplicado fantasmagoricamente na urbanização mostra que todo o nosso preconceito e ignorância contra o diferente é apenas o reflexo de nós mesmos pojetado num espelho. Criaturas com deformidades visuais não representam para a sociedade necessariamente o terror periculoso que vemos em filmes e livros de horror americano, e esse toque de verdade que Burton apresenta na maioria de seus filmes (vide Edward Mãos-de-tesoura) é um dos aspectos que mais admiro em todo o seu trabalho.

A Noiva Cadáver é uma produção musical, com lindíssimas canções que vão narrando o romance de maneira ainda mais sentimental. As canções de Danny Elfman transmitem agonia ao espectador nas horas certas e devida empolgação quando o assunto é de fato empolgante.

Quando assisti pela primeira vez, pensei que era animação, de tão bem feito. Mas pesquisei sobre o processo stop motion e vi que se trata de uma complicação danada. Os melhores artistas plásticos da época foram convocados pra projetar cada personagem com um toque identificável de caricatura manual, a partir dos estereótipos de Burton (que, por sinal é um excelente desenhista). Eles fotografam cada posição dos personagens, o que se assemelha bastante com o processo de animação em CGI, depois organizam a transição das imagens numa máquina, de maneira que os bonecos realmente pareçam estar correndo, estendendo o braço, cantando, mexendo a boca, enfim. É tudo muito interessante, e o mais fantástico é que tudo é feito com massinha de modelar!

Cada personagem tem um aspecto acentuado em sua aparência, como se fosse uma marca registrada: Victor, o noivo raquítico que não parece muito interessado pela cerimônia de casamento. Victoria, a noiva. Ela é baixinha, magricela, aparência típica de uma jovem confusa. Emily, a noiva cadáver é muito parecida com Victoria, e, ao mesmo tempo, muito diferente: Ela é como se fosse a versão cadáver de Victoria, porém muito mais alegre e metódica, muito mais disposta a se casar não importasse com quem. Os pais de Victoria, que pareciam querer a qualquer custo um noivo para sua filha, pareciam estar financeiramente abatidos, e com todo o oportunismo e cara de pau, a oferecem a qualquer um que se manifesta a portar enorme poder aquisitivo. Não vou contar mais, senão acabo spoileando pra quem ainda não assistiu.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Entendendo a Matrix



Matrix, pode-se dizer, é uma das melhores contribuições evolucionistas para o cinema mundial. Por quê? Porque é um filme repleto de efeitos visuais do início ao fim e tem uma estória futurística de tirar o fôlego? Sim, óbvio. Esse aspecto é usado para atrair os artistas gráficos e produtores de cinema, sem falar que ele se estende da cultura pop ao modernismo cotidiano, e uma notória ficção científica precisa de anomalias para ser ao menos aceitável. Mas esse vasto universo virtual dirigido pelos irmãos Andy e Lerry Wachowski abrange um parâmetro muito maior do que o que vemos com os nossos olhos.
O filme precisa ser visto com a mente. Matrix não é o tipo de produção para se ver uma vez e largar de lado quando estiver aparentemente ultrapassado.
Tendo fascinado milhares de estudantes e mestres da filosofia, a estória é uma verdadeira viagem a um mundo onde tudo e todos não passam de softwares exercendo suas devidas funções.
Thomas Anderson está confuso. Ele é um hacker que o usa o codinome virtual Neo para não ser identificado na vasta web. Durante o dia, trabalha normalmente como programador numa respeitada empresa de softwares e ignora o mundo em que vive.
A pergunta é: o que faria um hacker quando transformado no mais poderoso vírus de computador capaz de voar e parar balas no ar? Neo é o convocado para acabar com a guerra que cobre Morpheus e os outros da nave Nabucodonozor, então ele vai até o deus Ex-Machina e propõe-lhe um trato: Acabar com o programa Smith (que até então estava “limpando” todos os softwares da Matrix) em troca do cancelamento da guerra.
Smith era um poderoso antivírus, e Neo era um poderoso vírus. Ambos travam um confronto decisivo que definiria o destino da humanidade e, vendo que não pode vencer Smith (que se infiltrou na Fonte e ganhou poder para vencer o escolhido), Neo se deixa “limpar”, usando o termo mais óbvio para um escaneamento de computador, e é consumido pelo agente. Mas, segundo um amigo meu experiente em informática, o que acontece com um pendrive quando recebe (ou consome) um vírus e é posteriormente quebrado ao meio? É destruído juntamente ao vírus, e foi isso o que aconteceu. Neo, vendo que não tinha mais motivos para viver, se sacrifica pela Matrix, livrando-a de seu maior inimigo.

O que é a Matrix?

A Matrix é uma espécie de sistema operacional que está por trás do que os seres humanos julgam ser a realidade, por trás do cotidiano de todas as pessoas; mas na verdade todos somos manipulados por esse gigantesco turbilhão de informações, onde o indivíduo atua conforme a sua crença, conforme a sua capacidade em acreditar em si mesmo. Tudo é possível na Matrix, desde que a pessoa acredite que ela existe.
No filme, Neo enxerga esse vasto sistema operacional através de códigos, onde todos são softwares e exercem suas devidas responsabilidades, porque a sua acepção da matrix está de acordo com a vida profissional que ele leva (como programador ou hacker), mas cada um interpreta este universo individualmente.

Entender a Matrix e entender a si mesmo é uma tarefa complicada para Neo. Há uma cena no primeiro capítulo, pouco antes da aparição de Oráculo, em que Neo vê algumas crianças fazendo dados flutuarem, e, em meio a essas crianças, há um menino que entorta uma colher com o poder da mente. Neo tenta fazer o mesmo, mas não consegue concretizar o exercício da primeira vez.

Menino: Não tente dobrar a colher. Não vai ser possível. Em vez disso, tente apenas perceber a verdade.

Neo: Que verdade?

Menino: Que a colher não existe.

Neo: A colher não existe?

Menino: Então verá que não é a colher que se dobra, apenas você.


Na Matrix, nada é real, tampouco os gostos dos alimentos. O que as pessoas sentem ao comer alguma coisa não passa de uma mensagem que o alimento transmite para a mente e obriga a pessoa a "degustar" aquilo, exatamente como faz um programa de computador ao ser iniciado, ele precisa receber a mensagem para depois ser processado.
O exercício de concentração proposto pelo menino a Neo, na verdade é um treino de crença. Neo precisa acreditar que o que dobra é ele mesmo e não a colher. A colher, assim como os alimentos, não existia senão na cabeça de Neo.

Animatrix

Animatrix é um complemento para a trilogia, uma coletânea de animações que conta detalhadamente a origem do conflito entre homens e máquinas e outros ocorridos dentro da matrix.
Os homens deram às suas máquinas uma inteligência extraordinariamente independente, e ao mesmo tempo começaram a usá-las para tudo, em outras palavras, tornaram-nas suas escravas.
Com o passar do tempo, os robôs perceberam que estavam sendo manipulados e se rebelaram contra seus próprios donos, sendo massacrados momentaneamente por eles.
Os robôs sobreviventes escapam para o Oriente Médio e fundam o Zero-One, país destinado a abrigar apenas a sua espécie, para que tivessem tempo e desenvolvimento econômico suficientes para planejarem uma revolta.
Os homens, por sua vez, também raciocinaram. Sabendo que sem a energia solar as máquinas não funcionavam, resolveram queimar o céu, mas a Matrix é criada, e cai o desequilíbrio.

sábado, 2 de maio de 2009

“V de Vingança” de James McTeigue


por Bruno Gawryszewski e Gabriel Rodrigues Daumas Marques

"Remember, remember, the 5th of November
The gunpowder, treason and plot;
I know of no reason, why the gunpowder treason
Should ever be forgot."


Criada por Alan Moore (roteirista) e David Lloyd (arte) nos anos 1980, a HQ, V de Vingança (V for Vendetta, no original), chegou às telas dos cinemas em 2005, trazendo a figura do anti-herói de codinome V em sua missão de explodir o Parlamento britânico, repetindo a tentativa feita por Guy Fawkes em 1605 na “Conspiração da Pólvora”. A “Conspiração” foi orquestrada por um grupo de católicos insatisfeitos com a falta de isonomia no tratamento entre católicos e protestantes pelo então rei Jaime I. Guy Fawkes era o especialista em pólvora e fora preso estocando a pólvora sob o prédio do Parlamento, após a conspiração vazar aos ouvidos do rei. Aliás, são feitas várias referências à “Conspiração” durante o filme, como a rima supracitada, assim como o ideal de se explodir um símbolo como estratégia catalisadora para uma transformação social a partir da afirmação e revolta dos indivíduos.
Não é possível afirmar com clareza o momento temporal do filme, a não ser que se passa num futuro não muito distante assim. O contexto histórico-social é diluído no filme, ao contrário da HQ, em que se explica a ascensão ao poder do grupo fascista “Nórdica chama”, associado às corporações que restaram dos destroços da guerra nuclear que varreu os Estados Unidos, mas que atingiu a Inglaterra através da transformação criminosa dos efeitos climáticos. Aliás, a comparação da HQ e de sua adaptação às telonas é quase uma tentação para os fãs da série. Se a HQ dá a entender de que se instaurou uma ditadura empresarial-militar fascista decorrente de um golpe de estado (situação ainda muito presente no início dos anos 1980, quando foi escrita), no filme, o grupo chega ao poder através de eleições, o que já demonstra a incorporação da democracia formal pela burguesia no século XXI.

Destacaríamos como personagens principais V (Hugo Weaving), Evey (Natalie Portman) e Inspetor Finch (Stephen Rea). Todos esses personagens passam por transformações significativas. V é o resultado da frustrada experiência de testes comandados pela indústria farmacêutica dos membros do Partido e futuros governantes do país no campo de readaptação de Larkhill, onde eram levados os excluídos da nova sociedade, o que incluía minorias étnicas, sexuais, imigrantes e ativistas políticos. No filme, Larkhill se constitui a fonte experimental para riqueza posterior dos membros do Partido e sua ascensão ao controle do aparato do Estado. V é puro ódio contra aqueles que lhe torturaram, manipularam suas propriedades psíquicas e fisiológicas, e esse desejo de vingança, o combustível para suas ações “terroristas”, fazendo assim a sua justiça pessoal, já que a justiça legalmente constituída não pertenceria mais aos cidadãos, mas à classe dominante. A HQ nos ajuda a compreender o significado da Justiça para V. Ele diz que “Eu a admirava, apesar da distância (personificada pela estátua no alto do Old Bailey). Ainda criança, passando pela rua, eu admirava sua beleza”. Porém, naquele contexto a Justiça não passava de uma meretriz que flertava com os homens de uniforme. Quando “perguntado” pela estátua sobre quem tomou o seu lugar, ele responde que “seu nome é anarquia [...] com ela, aprendi que não há sentido na justiça sem liberdade” (p.43).


Evey é uma jovem bem instruída, amante das artes, porém assustada e temerosa. Seus pais foram executados pelas forças policiais por serem ativistas políticos que protestavam contra a ascensão do grupo fascista ao poder e ainda por cima, trabalha no canal BTN, a TV estatal rigidamente comandada pelo governo. Ela é salva por V após quase ser estuprada pelos Homens-Dedo (policiais). Seu personagem passa por uma verdadeira metamorfose no decorrer da película. Se no início do filme, mostrava-se servil e obediente ao sistema (apesar da plena consciência da tirania no poder) e às normas legais, depois passa a compreender os propósitos de V, forjando assim, não uma consciência de classe, mas uma consciência de luta contra a opressão da sociedade. Outro aspecto incorporado por Evey em decorrência de sua convivência com V é a ausência de uma identidade própria. Liberta de seus medos e fraquezas, Evey consegue sobreviver na Londres caótica sem se deixar reconhecer (e talvez sem reconhecer a mesma Evey).
Inspetor Finch, magistralmente interpretado por Rea, representa o fiel cumpridor de ordens do chanceler em assuntos investigativos da polícia. Também membro do Partido, ele acredita que sua missão em prol da sociedade é manter a ordem e a unidade através do trabalho na polícia. Honesto, ele leva seu trabalho a sério em seus princípios e quando as sucessivas revelações escusas sobre membros do Partido são trazidas à tona em suas investigações, começa a se questionar sobre quais interesses realmente representa.

Por conta da identificação do diferente enquanto perigoso, atitudes e discursos opressores e coercitivos transcorrem contra as minorias, como os imigrantes, os muçulmanos e os homossexuais, ao passo que nota-se a ausência de negros. Para que seja consolidada certa hegemonia, necessitamos abordar três pontos: a proliferação do elemento da fé, atrelada à união e à força; a utilização de aparelho repressivo, materializado pelos Homens-Dedo para fiscalizar e punir a desobediência até mesmo de maneira corrupta e pelo toque de recolher amarelo enquanto elemento de suposta proteção; e um farsante estado de ordem e paz trocados pelo consentimento silencioso do conjunto da sociedade.
Em tempos de Bush & Cia, observamos no filme a mesma fórmula que (costuma) justificar a ascensão dos regimes totalitários. Países em meio a uma recessão econômica, níveis elevados de criminalidade, desordem urbana ou então devastada por uma guerra civil são o prato cheio para a investida de um grupo, personificado por uma liderança, ora carismática, ora temida, mas que vem a público prometer que, em troca da perda da liberdade e direitos civis, tem-se de volta a segurança, a ordem, a paz e os valores perdidos. O resgate da família e a temência a Deus são temas recorrentes aos novos tempos. E qualquer um que venha a protestar por liberdade, será devidamente removido do convívio social. Não podemos deixar de citar a fala contida na HQ pelo Chanceler (na HQ, chamado de Líder): “Eu não ouvirei súplicas por liberdade. Sou surdo aos apelos por direitos civis. Eles são luxos. Eu não acredito em luxos. A guerra escorraçou os luxos. A guerra escorraçou a liberdade” (p.39).
Pareceu-nos importante comentar acerca de diversos destaques ao longo do filme às mais diversas manifestações artísticas. Através de referências a filmes e peças teatrais, da observação de pinturas e esculturas, a música dos instrumentos de percussão, bem como da encenação da prisão e da tortura de Evey e da dança realizada pelos protagonistas às vésperas da ‘revolução de V’, é levantado o papel do artista, que utiliza mentiras para contar as verdades e traz à tona a subversão e as potencialidades da Arte.
Ao transmitir mensagens ratificando a previsão de que ‘a Inglaterra triunfará’ além das certezas fabricadas—já que ‘dúvidas mergulharão o país no caos’—os dominantes revelam suas verdades universais, a fim de veicular ideologicamente a transmissão do medo, entreter a população e manter coesa a estrutura social vigente. Conforme citam Engels e Marx (s/d):
"Os pensamentos da classe dominante são também, em todas as épocas, os pensamentos dominantes, ou seja, a classe que tem o poder material dominante numa dada sociedade é também a potência dominante espiritual. A classe que dispõe dos meios de produção material dispõe igualmente dos meios de produção intelectual, de tal modo que o pensamento daqueles a quem são recusados os meios de produção intelectual está submetido igualmente à classe dominante. Os pensamentos dominantes são apenas a expressão ideal das relações materiais dominantes concebidas sob a forma de idéias e, portanto, a expressão das relações que fazem de uma classe a classe dominante; dizendo de outro modo, são as idéias do seu domínio (s/p).
Apesar da instigante aliteração utilizada com a letra V em sua apresentação para Evey e da afirmação de que não importa quem ele é, mas suas ações, sua identificação parte do algarismo romano estabelecido na porta de sua cela em Larkhill, local e ocasião de onde desponta o elemento catalisador da vingança concretizada posteriormente contra a cúpula dominante e diretamente envolvida com o caso—a Voz de Londres, o bispo, a legista, o chanceler e o que a este poderia substituir.
Nossa intenção é dialogar a partir da temática central do filme e oferecer subsídios para uma análise problematizadora da realidade complexa que nos cerca, traçando paralelos e questionando o método apresentado e a percepção das relações sociais estabelecidas que são apresentadas no enredo transcorrido.
Primeiramente, apesar da história situar-se em um futuro não muito distante2, carece de uma caracterização conjuntural do modo de produção existente, ou seja, a existência da propriedade privada dos meios de produção e a liberdade de compra e venda de força de trabalho enquanto mercadoria, necessidades básicas para existência e sobrevivência do sistema capitalista. Em segundo lugar, é notória a ausência de discussões acerca da divisão social em classes antagônicas, o que limita a centralidade do filme enquanto fornecedor de elementos para uma prática revolucionária na sociedade em que nos localizamos, pois não é mencionada a organização dos trabalhadores, uma séria análise das condições objetivas e subjetivas e majoritariamente é expressa a vingança de um indivíduo para com o sistema vigente. Pela opção de nos pautarmos a partir do materialismo histórico, Engels (2004) nos propicia com clareza:
"A concepção materialista da história parte da tese de que a produção, e com ela a troca de produtos, é a base de toda ordem social; (...) a distribuição dos produtos, e juntamente com ela a divisão social dos homens em classes ou camadas, é determinada pelo que a sociedade produz e como produz, e pelo modo de trocar os seus produtos. De conformidade com isso, as causas profundas de todas as transformações sociais e de todas as revoluções políticas não devem ser procuradas nas cabeças dos homens nem na idéia que eles façam da verdade eterna ou da eterna justiça, mas nas transformações operadas no modo de produção e de troca; devem ser procuradas não na filosofia, mas na economia da época de que se trata". (p. 61)
Essa superestimação do indivíduo pode influenciar em duas matizes: diretamente, a anarquista, através de práticas individualistas, terroristas e voluntaristas; metaforicamente, a marxista, cujos materialismos histórico e dialético nos servem de instrumentos para a práxis da transformação efetiva da sociedade. De acordo com Green (1982):
O anarquismo começa sua análise (...) a partir da situação do indivíduo—desrespeitado, oprimido, massacrado pelo jugo do poder centralizado da burocracia.
Já o marxismo inicia sua análise da sociedade a partir de sua divisão em classes conflitantes, exploradores e explorados, considerando essa divisão a raiz de toda opressão e a razão pela qual nenhum homem pode ser realmente livre. (p. 19, grifos do autor)
Em diversos momentos, é enaltecida a primeira pessoa do singular—‘depois que eu destruir o Parlamento’ ou ‘durante 20 anos busquei apenas este dia’, sendo atribuídas a V caracterizações de ‘terrorista psicótico espalhando mensagens de ódio’, o que recai sobre problemas morais—e faltam conseqüências responsáveis com o processo empregado, já que inexiste uma atuação centralizada e organizada de um Partido revolucionário enquanto vanguarda de uma classe oprimida. Fica-nos obscuro e omisso o que fazer após a explosão do prédio e a morte do setor dominante, pois um Estado socialista centralizado—ou ditadura do proletariado—“é imperativo absoluto enquanto a luta entre o novo e o velho sistema não estiver resolvida de modo conclusivo em escala mundial” (idem, p. 86); além da irresponsabilidade de estimular e levar as massas às ruas sem nenhuma possibilidade de autodefesa, pois elas poderiam ter sido esmagadas pelo exército, que recua pela falta de comando.
Cabe uma metáfora de nossa parte com algumas contribuições advindas do marxismo, caso identifiquemos o indivíduo V enquanto a figura de um Partido, já que o mesmo afirma haver por trás da máscara um rosto que a ele não pertence, que sob a mesma há mais do que carne; há idéias que são à prova de balas. Como de nada valem idéias sem homens que as coloquem em ação, poderíamos extrair daí o elemento subjetivo para a transformação social, amparado pela resposta de Evey ao detetive após questionar quem era V: ‘Era Edmond Dantes, meu pai, minha mãe, meu irmão, meu amigo, eu, você, todos nós’ e que teria clandestinamente organizado a Galeria Sombria e preparado a distribuição das máscaras para a população e o trem com explosivos para derrubada do Parlamento.
Apesar da metáfora proposta, são perceptíveis os desvios de método para correlação com a revolução socialista, alguns destes advindos de teorias anarquistas. Questionado por Evey se a explosão do Parlamento faria o país melhor, a resposta é que apenas há oportunidades, não certezas; ‘o prédio é apenas um símbolo, tal como o ato de sua destruição e o poder dos símbolos emana do povo’. Porém, “lançar uma bomba em um banco, incendiar um edifício (...) não é conduzir a revolução, mas brincar com ela (...) Não dá nascimento à consciência de classe” (ibidem, p. 108). Além do apontamento de que o povo precisa de esperança mais do que de um prédio, uma outra situação importante é quando deixa a decisão de puxar a alavanca às pessoas que construirão o novo, já que ele ajudou a construir o atual mundo. Também é comentada a importância da espontaneidade das massas para o sucesso de um movimento revolucionário, ampliando a discussão, pois “(...) sem uma teoria e liderança revolucionárias, a espontaneidade das massas é insuficiente para substituir o velho por algo fundamentalmente novo”. (p. 54).
A despeito das condições objetivas e subjetivas para o marxismo, Lênin menciona que a “revolução é impossível sem uma situação revolucionária, mas nem toda situação revolucionária tende à revolução” (p.216-7), apresentando três índices concomitantes para essa situação revolucionária, a saber, a crise das cúpulas, o agravamento extremo da miséria e da angústia das classes oprimidas e a atividade independente das massas. Junto a estas mudanças objetivas, é necessária uma mudança subjetiva, ou seja, a capacidade da classe revolucionária conduzir ações revolucionárias de massas a fim de destruir completa ou parcialmente o “velho Governo, que não cairá jamais, mesmo em épocas de crises, se não for forçado a sucumbir”.
Por fim, reproduzimos o questionamento do Inspetor Finch. Às vésperas do “Grande Dia”, imerso em seus pensamentos, como se perguntasse a V e a si mesmo: “Está pronto? Nós estamos prontos?”. Ocorrerá um 5 de novembro no século XXI, com data e local tão bem marcados? Ou será uma revolução absolutamente espontânea, surgida das massas? Ou sequer haverá uma revolução? Vivamos e construamos esses caminhos!

REFERÊNCIAS

ENGELS, Friedrich, MARX, Karl. A ideologia alemã. Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br, Acesso em: 3 nov. 2007.

ENGELS, Friedrich. Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico. São Paulo: José Luiz e Rosa Sundermann, 2004.

GREEN, Gilbert. Anarquismo ou Marxismo: uma opção política. Rio de Janeiro: Achiamé, 1982.

LENIN, V. I. La Faillitte de la Deuxième Internationale. Oeauvres. V. XXI, p. 216-217. In: NÚCLEO DE EDUCAÇÃO POPULAR. Apostila História das Revoluções e do Pensamento Marxista, São Paulo.

MOORE, Alan. V de Vingança. Edição Especial. Barueri: Panini Comics, 2006.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Entrevista com Raul Seixas


Entrevista Concedida ao Jornal Pasquin,
Rio de Janeiro, Novembro de 1973


O PASQUIM - Você surgiu publicamente com Ouro de Tolo. Mas nós queremos que você conte o seu início, desde o princípio mesmo.

RAUL - Vamos ver. Vamos voltar a 1959. Eu tinha um conjunto de rock, lá em Salvador. Eu morava perto de uns garotos do consulado, eles me apresentaram uns discos de rock...

O PASQUIM - Qual consulado?

RAUL - O americano. Estava aquela coisa acontecendo nos Estados Unidos e nós tomamos conhecimento. Nós fizemos um conjunto de rock em Salvador, e a gente viajava pra todo interior, fazendo aquela coisa, assumindo mesmo, vivendo aquela coisa da época.

O PASQUIM - Como é que chamava o conjunto?

RAUL - Os Panteras. Porque todo conjunto daquela época tinha nome de bicho.

O PASQUIM - Era um conjunto de quantos?

RAUL - Eram quatro pessoas. Guitarra, baixo e Bateria.

O PASQUIM - Krig-Ha, onde fica?

RAUL - Krig-Ha seria um rótulo. É uma sociedade que existe hoje no mundo inteiro, com vários nomes. Aqui no Brasil nós batizamos com o nome de Krig-Ha, que é o grito de guerra do Tarzan. Você deve ter lido Tarzan, né? Khig-Ha significa "cuidado"!

O PASQUIM - Bandolo é inimigo, né?

RAUL - É. Aí vem o inimigo. Tinha o dicionário de Tarzan na primeira página. Você lia e tinha a tradução. Eu sabia aquilo decorado. Mas essa sociedade promove acontecimentos. O primeiro acontecimento que essa sociedade promoveu foi o disco, o LP Krig-Ha, Bandolo!

O PASQUIM - E aquele símbolo da sociedade? A chave?

RAUL - Aquele símbolo é o símbolo de Amon Ra, acrescido de uma chave. Esse símbolo tem uma história interessante. Quando o Paulo Coelho, meu parceiro, tava em Amsterdã, em 67, ele estava usando um símbolo hippie no pescoço. E veio um sujeito estranhíssimo e arrancou o símbolo do peito dele e colocou esse símbolo, sem a chave e disse: "Não é nada disso. Agora é isso." Ele ficou assustadíssimo com aquele símbolo no pescoço, mas começou a usar. E nós fomos uma vez, há pouco tempo, escrever uma peça, que nós vamos lançar para o ano. Fomos lá em Mato Grosso, numa tribo de índio. E numa barraquinha de índio tava vendendo esse mesmo símbolo. Uma coisa incrível e batizamos como o símbolo da sociedade.

O PASQUIM - Fale um pouco sobre a sociedade.

RAUL - Como eu estava dizendo, essa sociedade promove acontecimentos. O primeiro foi o LP. O segundo foi uma procissão que foi muito bem sucedida. Foi muito bonito. A gente levou uma bandeira na rua. Uma explosão. Porque vocês sabem que tem havido uma série de implosões. Nós saímos à rua, cantando, foi muito bonito. A terceira foi esse show de teatro, esse show que nós estamos fazendo agora. E a quarta vai ser o piquenique do papo. Nós vamos convidar todos os artistas, de todos os campos e vamos fazer um piquenique bem suburbano, no jardim botânico. Todo mundo. Pra conversar. Um rapaz já se prontificou a fazer um discurso sobre "A Maldade das Formigas."

O PASQUIM - Qual é o fim específico da sociedade? A que ela se propõe? Ela segue uma "filosofia"?

RAUL - Essa sociedade não surgiu imposta por nenhuma verdade, nenhum líder. Não houve liderança no mundo inteiro, como se fosse tomada de consciência de uma nova tática, de novos meios.

O PASQUIM - Da própria sociedade?

RAUL - É, do próprio mecanismo da coisa. Nós estamos correspondendo com pessoas que fazem parte dessa sociedade, inclusive Jonh Lenon e Yoko Ono. Eles fazem parte da mesma sociedade, só que com outro nome. Nós mantemos uma correspondência constante com eles.

O PASQUIM - Voltando à sua biografia. Você poderia explicar sua formação literária, como você chegou a esse texto?

RAUL - Isso aí é uma coisa interessante. Antes de eu vir pro Rio eu pensava em ser escritor. Eu sempre escrevi. Antes de cantar, eu pensei em escrever. Eu tenho alguma coisa escrita guardada no baú , que penso em publicar algum dia. Eu sou muito dado à filosofia, eu estudei muito filosofia, principalmente a metafísica, ontologia, essa coisa toda. Sempre gostei muito, me interessei. Minha infância foi formada por, vamos dizer, um pessimismo incrível, de Augusto dos Anjos, de Kafka, Schopenhauer. Depois eu fui canalizando e divergindo, captando as outras coisas, abrindo mais e aceitando as outras coisas. Estudei literatura, comecei a ver a coisa sem verdades absolutas. Sempre aberto, abrindo portas para as verdades individuais. Assim, sabe? E escrevia muita poesia. Vim pra cá publicar.

O PASQUIM - Você teve a intuição de que a música seria um veículo mais imediato de comunicação?

RAUL - Essa tomada de consciência que eu tive foi há pouco tempo, uns dois anos atrás. Porque eu usava a música por música. E por outro lado eu queria atingir uma coisa pela literatura. Mas eu vi que a literatura é uma coisa dificílima de fazer aqui, de comunicar tão rapidamente como a música. Eu tive uma escola muito importante, que foi a CBS como produtor de discos de Jerry Adriani, de Wanderléa, daquela coisa toda de iê-iê-iê. Eu produzia discos para o Trio Ternura , aquele pessoal. Foi uma vivência fantástica para mim. Aprendi muito a comunicar.

O PASQUIM - E o Paulo Coelho, teu parceiro?

RAUL - Eu conheci o Paulo na Barra da Tijuca, num dia que tava lá. Às cinco horas da tarde eu tava lá meditando. Paulo também tava meditando, mas eu não o conhecia. Foi o dia que nós vimos um disco voador.

O PASQUIM - Você pode falar nisso, já que tá na moda, todo mundo vendo disco voador de novo. Como é que foi isso?

RAUL - Foi depois do FIC, em que eu cantei o Let Me Sing.

O PASQUIM - Ano Passado.

RAUL - Cinco horas da tarde. Então eu vi. Enorme, rapaz, um negócio muito bonito. Inclusive os jornais levaram a coisa pro lado sensacionalista: O cara viu o disco voador. "O profeta do apocalipse." Eu dei muita risada com isso. Mas não foi nada, foi um disco muito bonito.

O PASQUIM - Dá pra descrever o disco?

RAUL - Dá sim. Foi... era meio assim... prateado. Mas não dava pra ver nitidamente o prateado porque tinha uma aura alaranjada, bem forte, em volta. Mas enorme, entre onde eu estava e o horizonte. Ele tava lá parado, enorme. O Paulo veio correndo, eu não conhecia ele, mas ele disse: "Cê tá vendo o que eu tô vendo?" A gente aí sentou e o disco sumiu num ziguezague incrível.

O PASQUIM - Durou quanto tempo mais ou menos?

RAUL - Uns dez minutos.

O PASQUIM - Qual foi o efeito disso em vocês?

RAUL - Ouro de Tolo, que pintou aí. Essa música.

O PASQUIM - Usaram muito esse disco pra dizer que você era místico, um negócio assim. Esse disco voador foi pra parada de sucesso.

RAUL - Falta do que dizer. Não se tem mais o que falar hoje. Tem que se falar mesmo neste lado de disco voador, profeta do apocalipse. O homem que viu o disco voador dá IBOPE, chamam ele pro Sílvio Santos.

O PASQUIM - Independente dessa sociedade, é claro, e das coisas em que você acredita, você não acha que o tipo de atitude que você toma publicamente influi nisso? O fato de colocar nas suas entrevistas que você viu um disco voador, o fato de você ter feito sua procissão e a entrevista que você deu à Manchete dentro do avião, no aterro...

RAUL - Aquela foi gozadíssima. Ela ligou lá pra casa e disse que queria fazer uma matéria comigo, eu disse: "Pois não, mas eu tenho que fazer uma viagem de avião. Eu só dou entrevista dentro do avião." Era aquele avião que tem lá no aterro. Aí nós fomos pro avião 4 horas da tarde. Ela já tava me esperando lá. E Paulo Coelho com a mala. Todos nós entramos no avião "Cê tá gostando da viagem?" Pusemos o cinto de segurança. E ela com um medo de fazer a entrevista, um medo horrível de mim. Aí surgiu a aeromoça, que era minha mulher, servindo sanduíche, cafezinho. Ela ficou apavoradíssima. Mas foi uma brincadeira que nós fizemos, para usar a imaginação.

O PASQUIM - Raul, os sinais, suas letras, está tudo ligado com um magicismo seu. Você brinca muito com isso não? Magicismo, ironia mágica, seja lá qual for. Pra botar isso bem curto: Qualé?

RAUL - Vamos citar o Apocalipse bíblico. Foi escrito numa época incrível, você tinha que falar uma linguagem simbólica, uma linguagem mágica. Mas o Apocalipse é uma coisa que se adapta a qualquer época.

O PASQUIM - Principalmente a atual. É, algumas épocas mais do que as outras, alguns lugares mais do que os outros.

RAUL - É quase a mesma linguagem que nós estamos usando pra tentar dizer, tentar chegar a um objetivo. Não é um objetivo de uma verdade absoluta, porque ninguém aqui quer chegar a uma verdade absoluta e impô-la. Apenas se quer abrir as portas. Para as verdades individuais.

O PASQUIM - Então você quer abrir uma porta na cabeça de quem tá te ouvindo. Não há uma hora em que se fecha de repente? O perigo de fazer essas coisas, o perigo do magicismo, da maneira de dizer as coisas...

RAUL - É uma escada.

O PASQUIM - Mas ao mesmo tempo há o perigo de você se fechar dentro do magicismo! Há esse perigo, você vê esse perigo?

RAUL - Não. É uma escada. Um estágio. Nós estamos no primeiro estágio. Estamos transando com a fase "Terra" da coisa. Esse primeiro estágio tem que ser assim. O segundo estágio é outra coisa, já é mais aberto. Não se pode começar uma coisa assim, você tem que manipular. Por exemplo, Raul Seixas. Eu tô segurando Raul Seixas ali embaixo, como uma marionete. Eu tô aqui em cima. Eu sei até que ponto ele deve subir um pouquinho mais, cada vez mais. Mas nunca ele pode chegar aonde eu estou, não vou comunicar mais.

O PASQUIM - Esse Raul Seixas que você manipula, que está lá embaixo, é em função de quem te escuta e te vê?

RAUL - Esse Raul Seixas que está no teatro Tereza Raquel, cantando esse tipo de música, dando um certo toque mágico na coisa, é necessário. Usando muito a imaginação, a intuição. Longe, fugindo do logicismo. Esse logicismo radical, kantiano, de Pascal. Eu vejo isso como um estágio.

O PASQUIM - Você faz isso mais para se entender ou pra que os outros te entendam?

RAUL - Pra que os outros me entendam. Pra que eu penetre em todas as estruturas, em todas as classes, em todas as faixas. Todo mundo tá cantando A Mosca na Sopa.

O PASQUIM - Eu acho que o magicismo seria uma entrelinha. Você não tem medo então de perder a linha? Você vai tanto na entrelinha que acaba perdendo a linha.

RAUL - Não, que é isso? Sabe por que? Eu tenho medo de hermetismo. Eu acho que não é mais fase de hermetismo.

O PASQUIM - Mas o magicismo pode cair.

RAUL - Mas é um magicismo estudado. É dosado, nêgo.

O PASQUIM - Se você não estiver muito sob controle, pode cair nisso. Isso exige um tremendo autocontrole, conhecimento de si próprio, senão você embarca no próprio som do que você está dizendo. Tem que saber o que você está fazendo.

RAUL - Eu tô fazendo.

O PASQUIM - É isso que preocupa, se você está consciente. Ô Raul, como é que você vê os seus contemporâneos no Brasil? Os que fazem outras coisas, que escrevem romances, fazem poesias, trabalham em jornal, televisão etc.

RAUL - Como eu vejo a realidade? Isso aí é fogo, rapaz.

O PASQUIM - Use o magicismo.

RAUL - Peraí. Eu vou falar uma coisa aqui. Eu vou falar sobre os cabeludos. Eu li outro dia um negócio de Pasolini na Veja. Vocês leram? Achei fantástico. Você já não sabe mais quem é quem. Tá aquela coisa de cabeludo, tá todo mundo estereotipado. Por isso é que eu faço questão de dizer que eu não sou da turma pop, que eu não tô comendo alpiste pop. Eu sei lá, eu acho que tá todo mundo de cabeça baixa, tá todo mundo schopenhauer, todo mundo num pessimismo incrível. Essa geração audiovisual, e digo isso muito maldosamente, eu chamo eles de "audiovisuaizinhos". Minha mulher fala comigo que eu não devo fazer isso com eles, porque a garotada tá sabendo. Tá todo mundo de cabeça baixa, quieto, conformado. Eu sou um cara muito otimista nesse ponto. Sei lá, eu não sei se é a minha correspondência com o planeta, vejo a coisa em termos globais. E tá realmente acontecendo uma coisa fantástica, que é essa certeza e conscientização de que você deve ser um rato, transar de rato pra entrar no buraco de rato, vestir gravata e paletó para ser amigo do rato. E depois as coisas acontecem. Não ficar de fora fazendo bobagem, de calça Levis com tachinha. Esse tipo de protesto eu acho a coisa mais imbecil do mundo, já não se usa mais. Eles tão pensando como Jonh Lenon disse, "they think they're so classless and free". Mas não são coisa nenhuma, rapaz, tá todo mundo dentro de uma engrenagem sem controle.

O PASQUIM - Vamos falar do tempo em que você era produtor de discos na CBS. A sua posição profissional era praticamente ditatorial. Como é que era a tua transa pessoal com essa gente?

RAUL - Eu fazia aquela coisa porque sabia que era uma coisa inconseqüente. Eu fazendo ou não, outra pessoa ia fazer. Eu estava fazendo aquele trabalho, o diretor da CBS queria, e enquanto isso ia aprendendo a usar aquele mecanismo.

O PASQUIM - Você estava de rato?

RAUL - Exatamente. Eu estava de rato, vestido de rato. Foi quando surgiu a idéia de eu contratar Sérgio Sampaio e Edith Cooper, que é uma boneca lá da Bahia, um cara fantástico, muito amigo meu. Nós fizemos um disco chamado Sociedade da Grã Ordem Kavernista Apresenta: Sessão das Dez. Mas o disco foi misteriosamente tirado do mercado porque não era a linha da CBS. Esse disco foi quando eu botei as manguinhas de fora, foi quando eu comecei a fazer o trabalho. Era um disco que mostrava o panorama atual, o que tava acontecendo, o caos todo daquela época. O caosinho bonitinho que tava acontecendo naquela época.

O PASQUIM - Aí você foi expulso da CBS.

RAUL - Fui expulso em função desse LP. E também porque fui no festival Internacional da Canção, cantar Let Me Sing.

O PASQUIM - Eles não queriam isso?

RAUL - Não. Eles disseram: "Ou você é produtor ou você é cantor." Eu tinha que optar.

O PASQUIM - Raul o que te levou ao hermetismo? O que você andou fazendo de coisas herméticas, e o que te deu a noção de equilíbrio?

RAUL - Foi o primeiro LP que gravei na Odeon. Foi um LP louco, rapaz. Um LP extremamente filosófico, metafísico, ontológico, que falavam em sete xícaras, ou seja, as sete perguntas aristotélicas. Ou seja, as fontes do conhecimento.

O PASQUIM - Como é que chamava o disco ?

RAUL - Raulzito e seus Panteras.

O PASQUIM - Raul, você tem filhos?

RAUL - Tenho uma filha.

O PASQUIM - Em 59, você fazia rock na Bahia. Você conheceu Caetano e Gil na Bahia?

RAUL - Conheci o Gil.

O PASQUIM - Isso foi antes do tempo de Gessy-Lever?

RAUL - Do tempo que eu fazia jingle também. Só que eu fazia jingle rock e ele fazia jingle bossa-nova. A gente se conhecia, 59, 60 por aí.

O PASQUIM - Depois desse contato, como é que foi ficando? Distante?

RAUL - Era uma coisa lá e outra aqui. Nós tínhamos um lugar, o cinema Roma, onde a gente promovia shows de rock.

O PASQUIM - Bossa-nova não?

RAUL - Bossa-nova era no teatro Vila Velha. Era uma coisa bem separada mesmo. Existia um conjunto lá, a Orquestra de Carlito, com Caetano e Gil. E existiam os Panteras. Duas coisas completamente diversas. Mas no fundo eu acho que estava todo mundo querendo chegar a mesma coisa, era só problema de linguagem.
O PASQUIM - Raul, o pessoal que viu o show em São Paulo diz que, além da crítica leve que você fez ao Roberto Carlos, tinha uma crítica ao Caetano também.

RAUL - Tinha não.

O PASQUIM - E a crítica ao Roberto?

RAUL - É uma brincadeira. Porque quando Ouro de Tolo saiu, tava saindo uma música do Roberto em que ele agradece ao Senhor pelas coisas recebidas. Ele disse que agradece, eu digo que eu devia agradecer. Foi isso que os caras pescaram.

O PASQUIM - Você está a fim de ocupar a vaga de guru que o Caetano Veloso deixou?

RAUL - Eu não sei se é isso, não. Acho que Caetano tá sabendo o que tá fazendo. Ele sabe exatamente.

O PASQUIM - Caetano era guru ou não era?

RAUL - Não... Eu acho que ele não assumiu esse negócio de guru. Eu acho que viram ele como uma tábua de salvação, as pessoas tavam precisando dele, tava na hora de um apoio. Então escolheram o Caetano.

O PASQUIM - Ele ainda é o líder?

RAUL - O que você acha?

O PASQUIM - Eu acho que é. E você o que acha?

RAUL - Eu acho que tanto Caetano como Gil, embora sendo trabalhos diferentes, são incríveis.

O PASQUIM - Você falou sobre Caetano e Gil, falou sobre Jonh Lennon. E a sua influência do Bob Dylan?

RAUL - Isso é engraçado, todo mundo fala sobre esse negócio do Bob Dylan. Eu gosto de Dylan, mas não foi uma coisa marcante.

O PASQUIM - Ouro de Tolo tem uma influência.

RAUL - A letra de Ouro de Tolo saiu antes da música. Veio a letra primeiro. Eu só podia dizer aquela monstruosidade de letra quase só falando. Então calhou. Aquela coisa de Dylan, falada, calhou.

O PASQUIM - No ato de compor, o que vem primeiro na maioria dos casos, a letra ou a música?

RAUL - Geralmente vêm juntas.

O PASQUIM - Seu espetáculo é a aplaudido com um entusiasmo, digamos assim, com uma zorra total no teatro. Isso pode ser a força de seu recado. Um recado tão forte que o pessoal quer aplaudir, mas o recado ainda está um pouco na frente do momento. O que você acha?

RAUL - Eu não vou dizer por mim, mas Paulo Coelho acha isso. Ele acha que as pessoas ainda estão em dúvida, estão com um certo receio, assustam um pouco.

O PASQUIM - Raul, você falou sobre a sociedade. E outros planos para o futuro?

RAUL - Eu já tô com o meu segundo LP na cabeça. É como um degrau. Eu dividi o trabalho em quatro fases, simbólicas, é claro, dentro daquilo que nós já falamos, de magicismo. Fase Terra, Fase Fogo, Fase Água e Fase Ar. Somente com a identificação. Essa fase fogo vai ser diferente dessa, dentro do mesmo tipo de música, mas não exatamente iê-iê-iê. É outra coisa, eu prefiro que seja surpresa. Vejam depois de pronto. Eu tô seguindo uma orientação geral, em que eu recebo e dou informações. Em todos os quatro cantos do mundo, a gente tá sempre recebendo, tá tendo informações. Essa outra fase é uma fase de escada mesmo. Um lugar que você vai chegando gradativamente, sabendo aos poucos.

O PASQUIM - Basicamente que público você atinge?

RAUL - Todas as classes. Isso é que é bom. Sabe por quê? Eles assimilaram Ouro de Tolo dentro de níveis diferentes, mas no fundo era a mesma coisa. O intelectual recebia de uma maneira, o operário de outra. Lá em casa tá acontecendo uma coisa muito engraçada. Atrás do edifício estão construindo um outro enorme, então os operários cantam o dia inteiro Ouro de Tolo, com versos que eles adaptam para a realidade deles. Eles transformam os versos, dizem: "Eu devia estar feliz por que eu ganho vinte cruzeiros por dia e o engenheiro desgraçado aí..." Eu ouço o dia inteiro eles cantando isso aí. E as cartas que eu recebi da revista POP, que fez uma transação aí, negócio de "Diga o que você acha da música Ouro de Tolo." Veio do Brasil inteiro. Fantásticas aquelas cartas, eu guardo um monte. Eu li essas cartas todas. Todo mundo entendeu, dentro de uma conotação própria, dentro de um nível diferente. Eu achei fantástico isso. Quer dizer que tá funcionando.

O PASQUIM - Você tem algo a declarar para as novas gerações?

RAUL - Não, é uma juventude sadia, alegre, satisfeita, feliz e contente. Comendo alpiste. Amém.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Biografia de J.R.R. Tolkien


John Ronald Reuel Tolkien, autor do mundo fantástico da Terra Média, nasceu a 3 de Janeiro de 1892 em Bloemfontein, África do Sul.

Os seus pais, Arthur e Mabel Tolkien, eram de Birmingham, Inglaterra, mas viviam na África do Sul pois um cargo mais elevado tinha sido oferecido a Arthur no Bank of Africa.

Com três anos de idade, Tolkien, o seu irmão mais novo, Hilary e a mãe, regressam a Inglaterra para uma visita, enquanto Arthur Tolkien foi obrigado a ficar devido a trabalho, tencionando juntar-se à família mais tarde. Mas contraiu febre reumática e como não melhorava, Mabel planeava regressar para cuidar dele. Fizeram-se os preparativos de regresso, e um Tolkien entusiasmado, com apenas 4 anos, ditou à ama a seguinte carta para o pai:

“Querido papá:
Estou tão contente por ir vê-lo outra vez, já faz tanto tempo que o deixámos, espero que o barco nos leve a todos, à mamã, ao bebé e a mim. Sei que vai ficar muito contente por receber uma carta do seu pequeno Ronald, já faz tanto tempo que lhe escrevi, agora já sou um homem grande, porque tenho um casaco de homem e um colete de homem, a mamã diz que não nos vai reconhecer, nem ao bebé nem a mim, porque já somos uns homens muito grandes, temos tantos presentes de Natal para lhe mostrar, a tia Gracie veio visitar-nos, eu ando a pé todos os dias e só ando de vez em quando no carrinho. Hilary manda muitos beijinhos e abraços, bem como o seu querido
Ronald.”


No entanto, esta carta nunca chegou a ser enviada, pois chegou um telegrama informando da morte de Arthur Tolkien. A família desisitiu de regressar para Africa e Mabel teve de enfrentar algumas decisões difíceis depois da morte do marido.

Foram viver para uma modesta casa de campo em Sarehole, onde nasceu o amor de Tolkien pelas árvores, bem como o seu ódio por todos aqueles que as destruíam sem razão. Houve um incidente em particular que criou raízes na sua memória: “Havia um salgueiro junto à represa e eu aprendi a subi-lo. Creio que pertencia a um talhante de Stratford Road. Um dia, cortaram-no. Não fizeram nada com ele: o tronco simplesmente ficou por ali. Foi algo que nunca esqueci.” Este contacto com a natureza em Sarehole marcou profundamente Ronald.

Sem possibilidades de pagar a um tutor, Mabel assumiu pessoalmente a educação dos seus filhos. Era uma professora competente, com conhecimentos nas áreas de latim, francês e alemão. A disciplina favorita de Tolkien era o latim: os sons e as formas das palavras deleitavam-no tanto como o seu significado. Mabel também tinha sempre o cuidado de que os seus filhos tivessem bastantes livros para ler, e histórias de duendes maléficos e fadas boas eram as suas favoritas e estimulavam a sua imaginação. O pequeno Ronald gostava especialmente dos contos de Andrew Lang, e a história de Sigurd, o destruidor do dragão Fafnir, marcou-o durante muito tempo. “Eu desejava ardentemente os dragões”, recordou Tolkien muitos anos depois, e, aos sete anos de idade começou a escrever a sua própria história acerca de um dragão. “De nada me lembro a não ser de um facto filológico”, recordou. “A minha mãe não disse nada sobre o dragão, mas sublinhou que não se podia dizer “um verde grande dragão” e sim “um grande dragão verde”. Perguntei-me porquê e continuo a perguntar. O facto de eu me lembrar disto é, possivelmente, significativo, pois parece-me que durante muitos anos, não tentei escrever outra história e dediquei-me à linguagem.”

Em 1900 Tolkien conseguiu uma vaga na Escola King Edwards em Birmingham e a sua mãe converteu-se ao catolicismo. A conversão representou para Mabel e seus filhos o corte da ajuda económica dos seus parentes protestantes, que receberam muito mal este passo. No entanto, Mabel enfrentou com firmeza todas as dificuldades que a sua conversão provocou, e começou a educar os filhos de acordo com a religião católica. Tolkien permaneceu um católico convicto, um facto que influenciou profundamente o rumo da sua vida.

As propinas da escola que Tolkien frequentava eram pagas por um tio, que manteve a sua posição de solidariedade para com a família apesar da polémica conversão. Mas a escola ficava a cerca de seis quilómetros de Sarehole, e a mãe não tinha como pagar a viagem de comboio. Assim, nos finais de 1900, os rapazes deixaram a aldeia onde durante quatro anos tinham sido tão felizes, e mudaram-se para o ambiente escuro e urbano de Birmingham, para poderem frequentar a igreja católica e para estarem mais perto do colégio.

Enquanto Tolkien progredia nos seus estudos, a sua mãe contraíu diabetes, doença sem cura naquela época, o que lhe veio a provocar a morte a 14 de Novembro de 1904. O Padre Francis Morgan, pároco de S. Dunstan, passou a ser o tutor dos dois meninos. De início foram viver com a sua tia Beatrice, mas esta revelou pouca afeição pelos irmãos orfãos e estes em breve começaram a considerar a Igreja o seu verdadeiro lar. Todas as manhãs apressavam-se a servir na missa do Padre Francis e depois tomavam o pequeno almoço no refeitório da Igreja, antes de irem para a escola.

Tolkien ficou eternamente grato por tudo o que o Padre Francis fez por ele e o irmão. “Foi com ele que aprendi pela primeira vez o que é a caridade e o perdão” recordou muitos anos depois. Nos anos que se seguiram à morte da mãe, Tolkien descreveu-se como “praticamente um jovem interno da casa do Oratory. Era um bom lar católico que continha muitos padres instruídos e onde a observância da religião era rigorosa.”

A caridade e o perdão que Tolkien aprendeu com o Padre Francis nos anos seguintes à morte da mãe contrabalançaram a dor e a tristeza que esta provocara. A dor acompanhou-o durante toda a vida, e sessenta anos mais tarde, comparou os sacrifícios que a mãe fizera em nome da sua fé com a complacência de alguns dos seus próprios filhos em relação à fé que dela haviam herdado.

Nos anos que se seguiram o Padre Francis Morgan tornou-se um pai substituto para os dois órfãos. Tolkien descreve o Padre como “um tutor que foi para mim um pai, mais do que a maioria dos verdadeiros pais.” Todos os Verões, levava-os a Lyme Regis, onde ficavam instalados num Hotel, e foi numa dessas estadias que o sacerdote descobriu que os rapazes não eram felizes com a Tia Beatrice. Ao regressar a Birmingham, começou a procurar um local mais adquado, e em 1908 foram viver para casa da Sra. Faulkner, amiga do Padre Francis, onde partilhavam um quarto no segundo andar. No andar de baixo vivia uma rapariga, também órfã, muito bonita, que se chamava Edith Bratt. Apaixonaram-se e começaram a namorar em segredo.

Muitos anos mais tarde, numa carta a Edith, Tolkien recordou: “o primeiro beijo que te dei, o primeiro beijo que me deste (quase acidental), e as boas noites que trocávamos às vezes, quando estavas já em camisa de dormir, e as nossas longas e ridículas conversas à janela: e a forma como víamos o sol erguer-se sobre a cidade por entre o nevoeiro… e os nossos assobios, e os nossos passeios de bicicleta e as nossas conversas à lareira.”

Foi num desses passeios de bicicleta que o jovem casal se colocou em sarilhos, o que temporariamente pôs fim ao namoro clandestino. Pois Tolkien e Edith foram tomar chá na aldeia de Rednal, e apesar de saírem e regressarem separados para não levantar suspeitas, a senhora que lhes servira o chá disse ao zelador da Oratory House que vira Tolkien com uma rapariga desconhecida. O mexerico depressa passou para o cozinheiro, que por sua vez contou ao Padre Francis.

O sacerdote ficou furioso, tanto mais que Tolkien estava a negligenciar os estudos tão pouco tempo antes do exame de admissão para Oxford. Convocou-o e exigiu o fim do romance com Edith até atingir a maioridade. Quando a jovem se mudou para outra cidade, Ronald, com o seu espírito romântico, não a esqueceu durante os três anos de separação. Assim, à meia-noite do dia em que completaria 21 anos, escreveu uma carta a Edith para reatar os laços rompidos. Este amor de Tolkien pela sua futura esposa foi a inspiração que mais tarde deu origem à lendária “Balada de Beren e Lúthien”

Em 1911 Tolkien consegue obter uma bolsa de estudos para o curso de Letras da Universidade de Oxford, e foi numa viagem aos Alpes Suíços com o seu irmão e outros finalistas da Escola King Edwards, que lhe deixou profundas recordações, como mais tarde conta a seu filho Michael, quando este também vai visitar a mesma zona. Foi nessa altura que idealizou uma das personagens dos seus futuros contos: Gandalf, o ancião que aparece num bilhete postal como o Espírito da Montanha, bem como as montanhas lhe inspiram a descrição da jornada de Bilbo, anos mais tarde. Conta ao seu filho alguns incidentes engraçados, como um encontro com aranhas (que Tolkien detestava) e um episódio do “Jogo do Castor”, que os jovens estudantes se divertiam a fazer mas que um dia teve resultados inesperados:

“Um lugar maravilhoso para o jogo, muito da água naquela altitude descendo em córregos, material represado abundante em pedras soltas, urze, grama e lodo. Nós logo tivemos um belo laguinho (contendo uns 200 galões, pelo menos). Então as pontadas de fome nos golpearam, e um dos hobbits do grupo (ele ainda está vivo) gritou \\\\\\\'almoço\\\\\\\' e destruiu a represa com o seu bordão. A água subiu o lado da colina, e então nós observamos que represáramos um córrego que corria para alimentar os tanques e barragens atrás da pousada. Naquele momento uma velha senhora correu com um balde para buscar um pouco de água, e foi saudada por uma massa de água espumante. Ela derrubou o balde e fugiu chamando pelos santos. Nós permanecemos como cachorros escondendo-se até o perigo passar, e eventualmente demos a volta no caminho para nos apresentarmos sujos (mas nós estávamos normalmente assim naquela viagem) e docemente inocentes no almoço.” - (Carta nº 306)

Em 1915 Tolkien terminou a licenciatura em Oxford, mas teve de se alistar no Exército, pois no ano anterior tinha rebentado a Primeira Guerra Mundial. Foi enviado para França e participou na Batalha do Somme, mas antes de partir casou com Edith na Igreja Católica de Warwick, a 22 de Março de 1916, sendo a felicidade do casal ensombrada pela notícia de que o batalhão de Tolkien devia partir, poucas semanas depois do casamento. A esse respeito, Tolkien escreveu a seu filho Michael, em 1941:

“Pensa na tua mãe! No entanto, nem por um momento sinto que ela tenha feito mais do que lhe deveria ser exigido. Não que isso diminua o seu valor. Eu era um jovem com um moderado grau académico, capaz de escrever versos, com um rendimento de poucas libras por ano prestes a esgotar-se e sem prespectivas, um segundo tenente de infantaria onde as hipóteses de sobrevivência estavam largamente contra nós (como subalternos). Ela casou comigo em 1916 e Jonh nasceu em 1917 (concebido e gerado durante o ano da fome de 1917 e durante a grande campanha dos submarinos alemães), por volta da altura da batalha de Cambraia, quando o fim da guerra parecia tão distante como agora.”


Na guerra Tolkien perdeu alguns dos seus melhores amigos, o que o marcou profundamente, e ele próprio apanhou a febre das trincheiras, tendo de regressar a Inglaterra. Passou o resto da guerra entre recuperações e recaídas, sendo transferido de um hospital para outro, e tendo Edith de mudar de casa continuamente para poder acompanhá-lo. Durante a sua convalescença, começou a escrever o que mais tarde seria O Silmarillion, pois concebera o ideal de criar uma mitologia inglesa, pautada por valores morais. Trabalharia nesses Contos toda a sua vida. Em 1921 conseguiu o lugar de professor de Literatura Inglesa na Universidade de Leeds, e em 1925 regressou a Oxford como professor de Anglo Saxão.

Tolkien e Edith tiveram 4 filhos, John, Michael, Christopher e Priscilla, que iluminaram a vida do casal e o que tornou Tolkien um grande contador de histórias, pois foi um pai sempre atento e amoroso, que inventava e escrevia contos tanto para divertimento dos filhos como para o seu próprio. O seu mundo era o da Literatura e da Linguística, e nos anos 30 começou a compor uma história, que contava à noite aos seus filhos, e que veio a ser O Hobbit. O livro fez tanto sucesso que, a pedido dos leitores e do seu editor, que desejavam mais histórias de Hobbits, Tolkien comprometeu-se a preparar um novo livro, que demorou 13 anos para terminar: O Senhor dos Anéis.

Tolkien também formou alguns grupos literários de amigos que se reuniam para ler e comentar as sagas antigas e discutir sobre literatura. O primeiro desses grupos foi o TCBS (Tea Club and Barrovian Society), ainda como aluno em Oxford, com os seus colegas Christopher Wiseman, R.Q. Gilson e Geoffrey Smith. Mais tarde formou The Coalbiters e em 1931, The Inklings. O Núcleo básico era formado por Tolkien e C.S. Lewis, e reuniam-se num bar ou em casa de algum deles, onde liam e comentavam os seus trabalhos, o que por vezes foi um grande incentivo para Tolkien continuar o longo trabalho de “O Senhor dos Anéis”.

Tolkien e Edith foram casados durante 55 anos, até ela falecer a 19 de Novembro de 1971, o que lhe produziu um grande abalo. Numa carta que escreveu a Christopher, a 11 de Julho de 1972, exprimiu o seu amor pela esposa da mesma forma que sempre se exprimia quando tinha algo para dizer que ultrapassava os simples factos. Recorreu à linguagem do mito, e mais especificamente à linguagem do mito que ela lhe inspirara:

“Finalmente, ocupei-me do túmulo da Mamã. [...] Gostaria do seguinte epitáfio:

EDITH MARY TOLKIEN
1889 – 1971
Lúthien


É breve e simples, a não ser por Lúthien, que tem para mim mais significado do que uma imensidão de palavras, pois ela era (e sabia que era) a minha Lúthien.
[...] Diz o que sentes, sem quaisquer reservas, a respeito deste acrescento. Comecei isto sob a pressão de uma grande emoção e tristeza e, seja como for, sou de vez em quando atormentado (cada vez mais) por um esmagador sentimento de perda. Preciso de um conselho. No entanto, espero que nenhum dos meus filhos sinta que a utilização deste nome é uma fantasia sentimental. Pelo menos, não comparável à citação de alcunhas familiares em obituários. Nunca chamei Lúthien a Edith, mas foi ela a fonte da história que, a seu tempo. se tomou parte de Silmarillion. Começou por ser concebida numa pequena clareira cheia de cónios em Ross, em Yorkshire (onde, durante um breve período, tive o comando de um posto avançado da Guarnição de Humber, em 1917, e onde ela pôde viver comigo durante algum tempo). Nessa época, o cabelo dela era preto e sedoso, a pele clara, os olhos mais brilhantes do que os que vocês viram, e sabia cantar... e dançar. Mas a história estragou-se, e eu fiquei para trás, e não posso suplicar perante o inexorável Mandos.
Por agora, não direi mais. Mas gostaria de ter brevemente uma longa conversa contigo. Pois se, como parece provável, eu nunca vier a escrever uma biografia ordenada - seria contra a minha natureza, que se expressa sobre coisas que se sentem mais profundamente em contos e mitos - deveria haver alguém a quem muito estimasse que soubesse algo sobre as coisas que os registos não registam: os terríveis sofrimentos da nossa infância, de que nos salvámos mutuamente, mas não fomos capazes de sarar os ferimentos que mais tarde viriam muitas vezes a revelar-se incapacitantes; os sofrimentos que suportámos depois de o nosso amor começar... tudo isso (além das nossas fraquezas pessoais) poderia contribuir para tornar perdoáveis, ou compreensíveis, as falhas e trevas que por vezes deterioravam a nossa vida e explicar como foi que estas nunca tocaram as nossas profundezas nem esmoreceram as memórias do nosso amor de juventude. Continuámos a encontrarmo-nos (especialmente quando estávamos sós) na clareira do bosque, de mãos dadas, muitas vezes para fugir à sombra da morte iminente antes da nossa última despedida.”


Tolkien viria a falecer a 2 de Setembro de 1973, aos oitenta e um anos de idade. Foi sepultado ao lado da esposa no cemitério católico de Wolvercote, a alguns kilómetros de Oxford. O epitáfio da lápide de granito é o seguinte:

Edith Mary Tolkien, Lúthien, 1889-1971. - John Ronald Reuel Tolkien, Beren, 1892-1973.


Bibliografia: Tolkien, o Homem e o Mito - Joseph Pearce
O Mundo do Senhor dos Anéis - Ives Gandra Martins Filho


Texto retirado do site Tolkenianos.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

O deserto perverso


Caminhado pelo deserto, eu chutava a areia
Clara era tua cor, mas pretas eram suas artimanhas
Enquanto voavam, grão por grão,
Rodopiavam aleatoriamente
Moldando rostos
Me dopando com a sua óptica.

O que deveriam ser rodopios abstratos
Tornaram-se assombrações
Assombrações ao deserto, tarde caindo,
Alisei minha barba,
Apertei meu cinto,
Fixei as areias recalcadas,
grão por grão,
E de grão por grão, fui caindo

Puxado pelo solo, fui submerso,
Submerso pelo granulado rio,
Submerso pelo exílio,
Até o glorioso santuário
Que também foi submerso outrora
Submerso como eu.

Abaixo, desci mil degraus,
Ou seriam os degraus que desceram mil de mim?
O templo era tão deserto quanto o real deserto,
Era o pedículo de cogumelos,
Debaixo da sombra de cedros mortos.

Enquanto eu antes era o panorama,
Agora me tornei a panorâmica vista.
Vista de um futuro aventureiro,
Que cortaria o deserto para me resgatar.
Vista de um salvador inexistente,
Que, aos prantos e louco,
Me deixaria evaporar.